Blog EntryRituais de Tomates Urbanos - por LupaJul 21, '08 3:20 PM
for everyone

Eu me apaixonei por este texto. É maravilhosa a forma como ela coloca, de maneira muito singela e prática, sua experiência com os tomates e com os ciclos da terra. Muito eu. Pietra fez a gentileza de traduzí-lo para mim, já que estou cheia de trabalho e vazia de inspiração.

 

Rituais de Tomates Urbanos, ou Como Entrei em Contato com os Ciclos Agrários Pagãos


por: Lupa

traduzido por: Pietra di Chiaro Luna

revisto por: Inês Raven

originalmente publicado em http://www.key64.net/content/post/492


Então, eu não sou uma jardineira. Mas este ano plantei dois pés de tomate, um em cada lado do meu altar externo, que fica no quintal. Eu os reguei todos os dias e, enquanto fazia isso, percebia que a água que era tomada pela terra, de alguma forma, terminava, em parte, em meu corpo. Fiquei impressionada com este pensamento, olhando para as gotas que caíam na terra, maravilhada.

 

Pelas semanas seguintes, continuei minha vigília. Eu esperava até a noite, pois não queria que a água ajudasse o sol a fritar minhas plantinhas. Eu olhava para as folhas saudáveis, cheias de clorofila, que transforma a luz do sol em nutrição - o que é um conceito alienígena para os sistemas mamíferos. Com certeza, se tomarmos algumas vitaminas, aumentaremos a produção de serotonina no corpo. Mas se tivéssemos que ficar o dia todo embaixo do sol, nunca sobreviveríamos como estes serezinhos fazem.

 

Pensei nas raízes, também, cavando na mistura da terra e do solo fértil com o adubo que fui dando mais tarde com ossos, peixes e restos de alimentos orgânicos. Eu imaginava como as raízes, tão pequenininhas, iam puxando seus nutrientes da terra, uma coisa que meu corpo nunca poderia fazer, não importando quanta terra eu comesse. Lembrei-me, também, o quão raso o nosso solo é perto do que é a crosta da terra, sem pensar no manto e no núcleo terrestres. A Geografia aprendida na quinta série nunca me deixou esquecer isso.

 

Hoje levei uma oferenda para os espíritos no altar e colhi os dois primeiros tomates. Eles eram pequenos, do tamanho de uma bola de golfe, uma vez que havia pouco tempo que tinha percebido que os tomates precisavam de fertilizantes (um amigo meu foi muito gentil em me dar a receita de um fertilizador orgânico que ele mesmo havia feito e aperfeiçoado, e colocava nos tomates dele). Ainda assim, estavam perfeitamente maduros, de um alaranjado profundo, sem as manchas vermelhas que os supermercados colocam para os tomates pareçam mais frescos.

 

Eu os trouxe para dentro e, depois do jantar, dei um para o Taylor, que os elogiou.

Então peguei o outro e, cuidadosamente, o cortei em quatro, horizontalmente, e coloquei-os em um prato. Sentei no chão e peguei o menor pedaço, o lado oposto ao cabinho. Eu o olhei por um momento. Ali, aparecendo na superfície da parte interna da fruta, estava a água que eu dei à planta nas semanas anteriores. Eu observei isso com admiração e coloquei aquele sacramento na minha boca.

 

Estava doce, um tanto ácido, como os outros de sua espécie. Era suave, mas muito saboroso. A polpa estava perfeita, madura, mas não farinhenta. Perfeição. Comi as outras três partes e apenas o cabinho sobrou. Então peguei o cabinho do tomate do Taylor e fui lá fora.

 

Os coloquei na base da planta que os gestou e agradeci por este presente. Voltei para casa com um sentimento de que havia sido iniciada em um novo mistério.

 

Dois pezinhos de tomate, e me sinto mais ligada aos ciclos da Natureza do que minha mãe, que tinha grandes jardins em sua casa. Talvez minha vitória seja risível para aqueles que já sabiam de tudo isso por anos, que descobriram por si só que as teorias funcionam na prática - ou que nunca as esqueceram. Para aquela que conseguiu apenas plantar algumas plantinhas saudáveis de babosa, dois pés de tomate, das sementes à fruta, foi sem dúvida, uma grande conquista. Eu ainda posso sentir o gosto ácido na minha língua, a luz do sol e a água dada com cuidado, e eu penso que vão ficar comigo mais uma vez, a não ser que eu os esqueça, o que não pretendo.


lucianapagana wrote on Jul 21, '08
lindo, por que plantar faz bem, para a alma, o corpo e a mente...
templodedurga wrote on Jul 21, '08
Quanto mais vivencio os ciclos, mais percebo que é na prática que aprendemos os verdadeiros mistérios!

Belo texto, belo ensinamento...
greenwomyn wrote on Jul 21, '08
Voltei para casa com um sentimento de que havia sido iniciada em um novo mistério.
Lindo, lindo!
triocesarini wrote on Jul 22, '08
Tb senti isso nas minhas primeiras colheitas, comi do lado de fora mesmo, quase perto de onde plantei os tomates e eram aqueles pequeninos. Hoje quando molho, mexo e remexo terra, na horta é um sentimento de conexão como se senti-se o útero. Parece exagero, mas.... vai plantar, adubar, dar carinho e comer, depois nos conta?
triocesarini wrote on Jul 22, '08
Desculpe, amei o texto me fez recordar por isso escrevi tanto..
carolyara wrote on Jul 24, '08
A sua cara... Inês... apaixonante mesmo!!!
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