Deméter recosta em seu trono e ouve o som do cortejo de Dionísio se afastar. Nessa época Ela pode, finalmente, se permitir alguns momentos de introspecção. Perséfone retornou ao seu reino, acompanhada da Trívia. Dionísio seguiu sua viagem, com Pã em seu encalço. Eleusis se esvaziou, lentamente, e agora a deusa sozinha senta-se, cansada, olhando as paisagens e ouvindo o synrinx que vai ao longe.
Os cabelos dourados estão ocultos sob o véu negro. Difícil ver o turquesa de seu vestido. A coroa de trigos foi guardada junto com o cereal nos celeiros e a deusa se prepara para, como o alimento controlado do inverno, se fechar em seu templo. É um período de descanso, de meditação, de recolhimento para a deusa mãe cansada de trabalhar no plantio e na colheita.
A terra adormece e se recolhe junto com sua mãe. Volta-se para dentro, restabelece suas forças. Não se sabe se é a deusa quem se inspira no movimento da terra, ou se é a terra que imita as ações de sua deusa. O importante é que ambas descansarão até o recomeço do trabalho.
Há uma certa melancolia pairando no templo. Não é o mesmo desespero de quando Kore se tornou Perséfone pela primeira vez. Não, não há desespero. Mas sim uma resignação muda, uma nuvem gelada no ar. Uma terra sem cor, sem o calor de Hélios e sem o brilho de Hécate.
Mas Deméter, no momento, não preocupa com isso. Ela fecha seus olhos, sem pensar em nada, sentada em seu trono, ladeada por suas serpentes e protegida do frio pelo templo de pedra.